segunda-feira, 31 de outubro de 2011

JOE CANÔNICO - POESIAS




Israel (ou "os três sóis de Judá")



De qual Anjo
sairia
áurea lança ?
Qual das Mulheres
geraria
aquela criança ?
Em qual deserto
faria
aquela andança ?
Em qual terra
nasceria
toda esperança ?
De qual reino
surgiria
a vizinhança ?
De qual povo
brotaria
tal confiança ?
Qual tribo
bailaria
a célere dança ?
Para qual povo
se faria
a festança ?
De quem
irromperia
tal liderança ?
Qual Arca
guardaria
tão forte aliança ?
Em que Paraíso
perpetuaria
toda abastança ?
De qual José
se esperaria
tal bonança ?
Em qual das Marias
se plantaria
tal semente
de mudança ?



Antípoda



Posso ser vil o quanto as flores me instiguem
Posso ser excelência o tanto me agucem os crimes
Deverei ser cruel o quanto me ensine
o azul do céu
Deverei ser caridoso o tanto que me mostre
todo mar lodoso
De minha doce boca sairá enxames
De minha compreensão se instaurarão ditames
De perversas palavras brotarão nações
de tão sórdidas, se louvarão canções
A cada passo ido, voltarei no tempo
e a cada atraso consentido atingirei meu intento
De cada bocada no alimento nobre
vomitarei aos borbotões, até que nada sobre
Minhas mais sinceras lágrimas
corroerão suas faces, como estigmas
Do meu odioso espasmo e grito
resplenderá à elevação, ao solene mito
do que haverá de mais bonito !

Já não colho mais flores, às suas mortes prematuras
Já não lustro os sapatos, à tirar-lhes o pó do tempo perdido
Já não enxugo as lágrimas, que lhe dissolveram os olhos e o rímel
nem tampouco me lavo e me seco, nem me benzo e exorcizo ...
Minhas asas se derreteram sob o deserto escaldante
e nem ao menos, tal como Ícaro,
alcei voo ao seu destino previsível e fatídico
Dédalo de mim mesmo, sigo seguindo meus sóis...



Porquês



Por que chegou tão tarde
assim, sem fazer alarde
com estes olhos desenhados
só meio alegres
e inteiro amargurados ?

Por que sorriu tão linda
assim, tão cedo e ainda
mostrou teus bailados
e em meio a lábios,
me deixou na berlinda ?

Por que veio tão doce
assim, como num enlace
acenou beijos açucarados
e com trejeitos sábios
me levou ao impasse ?

Por que jogou esse charme
ateou fogo sem alarme
com esse corpo alado
de asas finas e leves,
e me deitou acabado ?

Por que dançou a música
assim, como fosse a única
jogou este olhar malvado
em encantos breves,
cedi completo e tomado ?

Por que revelou o que sinto
me prendeu em teu labirinto
alçapão enclausurado
desarmou meu passado,
e nem para mim mais minto ?

Por que tocou minhas notas
assim , tão castas e devotas
coração escancarado
despiu-me da alma às botas
me fez morrer hemorrágico,
sem ter sangrado ?

Porque chegou tão tarde
assim, sem fazer alarde...


Sete Tempos

Manda-me mais sonhos
ainda tenho muito sono
é cedo para camisa e gravata
os anjos rondam minha cama
e me arrumam as cobertas

Ferva-me mais água
o café, deixa que meço
é cedo para o banho quente
o aroma inunda a casa
e pede janelas alertas

Esquenta-me mais os ladrilhos
ainda visto macia flanela
é cedo para a porta e fresta
os sonhos inda persistem
fogem das horas certas

Banha-me de doce perfume
ainda de que breve escuma
é cedo para o baile e festa
o lenho que queima e aquece
trepida em faíscas dispersas

Arruma-me por sobre o leito
a roupa que o sol secou
é cedo para o pente em riste
o torpor que cai e esvanece
deixa por sombras discretas

Alinha-me sobre o peito
o pão que ainda existe
É cedo para a faca e corte
O leite de ubre e porte
escorreu por valas abertas

Lustra-me o couro pisado
ainda é pouco o brilho
já se faz tarde, ao que viestes
o corpo cálido que a lua velou
deita eterno em pedras concretas...



sobre Bill, Village , 46th Street com 5ª no baixo e pernas...(sandices em 3 movimentos)

I

quando ouço Bill Evans,lembro New York
até do teu pescoço branquinho.
Voce sabe...ou não lembra ?
porque a cada acorde resoluto estremeço
adrenalinicamente óbvio, dor de barriga
pelo e pele e curva e alcova e soul
teu cheiro na minha barba, minha cova
subway do teu sorriso no meu estômago
fico nanico, pago esse mico
...aí ?...vai ou não ?... que coisa !
será que teu sorriso não sai
mais de um sol com a 4ª no baixo ?
é droga...só pode ser !...ácido lisérgico
esse trio não é moleza,
só destreza e quero mais
à dois, com talheres ao fundo
eu vou pro fundo do teu olhar
passado na Broadway com 5ª
nosso cenário é a Greenwich Village
putz !...começou o solo do baixo...
fico muito puto com tanta
baixaria...ou seria a tua BRUXARIA ?
[please, driver... get on left, to 46 Street
I left my heat on her heart, sorry…
nothing more to do…]
quando ouço o Bill de novo
te lembro e morro sozinho
no Central Park, China Town
Voce não vem ?...Também não vou...
estamos resolvidos em Si sustenido...
ah !...que besteira !...isso é um Dó !

II

Levanto e misturo café com pasta de dente
newspaper com sanduíche de queijo-quente
Me sinto vulnerável igual September11
ainda levanto pra escrever bobagens
de novo ouço Bill Evans, e traço linhas
sem conduta nenhuma mesmo
pura porralouquice, meninice mesmo...
miseravelmente louco, babo um pouco
me desespero e espero seu triângulo
pelúcia amaciada com Confort...
a gente bem que podia se encontrar
pra namorar um cup of coffee whit Bourbon
naquele bar em frente ao Metropolitan...
peraí !...D dim/9...G7+/A...C7+/G
ficou legal ?...sei não...meio blasé...
Não consigo esquecer daquelas pernas
se Bernstein tivesse vivo,
faria uma sinfonia pra elas...
ta bom...ta bom...faço eu, então
no mínimo uma Sonata elas valem
“Sonata Nº 5 , per tue gambe...”

III

Preciso ir até Down Town...
O que me faz voltar pra cama
é poder escrever, tocar, beber, amar
et coetera e tausssssss...



*JOE CANÔNICO - Entrevista

2 comentários:

  1. MUITO BOM!

    Joe, sua modéstia esconde sua maestria. Alguns poemas eu nem conhecia. Agradável surpresa!

    Super-poeta! Parabéns!

    Beijos em si

    Mirze

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  2. Mirze !

    Você é presença indelével !

    muito obrigado !

    Bj

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