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quarta-feira, 23 de novembro de 2011

NILSON BARCELLI - POESIAS






O parto






Vou procriando embriões de palavras,
que verto a tentar não perder o fio ao enredo,
mas tenho um parto atribulado.


Levanto o prematuro, limpo a placenta
e dou-lhe duas palmadas no rabo.
Provo-lhe a semente do grito primevo
enquanto devoro baforadas de vácuo prenhes de fumo.


Alfaiate e parteiro, dou uma tesourada de pai indeciso
no cordão umbilical
e lavo o filho de sangue em mil ideias com asas.


Coso a boca às feridas, refino pensos,
mas atrapalho-me com nuvens de pó de talco
e quase deixo escapar os versos convalescentes
pelo cano da incubadora.


Recomeço, uma e outra vez,
até que as dores da aparição se desenruguem
e Morfeu o não ache nado-morto
para estágio em colchão de sono breve.


De candeia em punho,
percorro esquinas e vielas do poema
até projectar o mapa do seu corpo na retina
para radiografar as ideias ulceradas a intimar cirurgia.


Do esboço inicial, a martelo e a cinzel,
passo à transpiração burilada
na paciente finura das formas.


Certas palavras, ao sentir o bisturi da coerência
a bordar a pele, espetam agulhas
nas pernas de outras palavras para que fujam à dor
e plasmam novas palavras com pinças e ligaduras
num corpo exausto de próteses.


Aceitável o filho, agora com malformações
quase só perceptíveis aos olhos do mestre,
penduro-o na parede e abandono-o.


É teu.




Nilson Barcelli © Outubro 2011






Amanhã






Amanhã,
quando o poema invadir os teus braços
e percorrer inteiro as veias do teu corpo,
será nas mãos que revelarás
a percepção do desejo
que há na luz do teu olhar.


Acordarás, então,
a perfeição dos teus seios
e a ternura inundará a tua pele,
moldando-te a voz
em timbres que julgavas esquecidos
nas palavras da memória submersa.


Haverá,
nesse tempo de rosas, bandos
de andorinhas perfumadas no teu rosto,
mas não será minha essa virtude,
já que me darei em silêncio
para não paralisar a beleza do teu voo.




Nilson Barcelli © Outubro 2011






A luxúria das palavras






Há em ti
palavras que fecundam os sentidos,
onde as cores
dos mares que te habitam
reproduzem braços quentes
que me concebem.


Há em ti
palavras que se abrem no regaço
e se afundam no meu sorriso
de pássaro cinzento,
colorindo as sementes
espalhadas pelos vales do teu corpo.


Há em ti
palavras que se despem
na loucura que os meus olhos restituem,
vestindo-te do vinho
que bebemos
na taça da luxúria das palavras.




Nilson Barcelli © Agosto 2011






Palavras mutiladas






Se o que eu digo fosse arte,
não seria de censura
o nó que me confina a liberdade.


Nem sentiria
a ardência do vinagre
nas feridas abertas da ausência.


A luz
[que me fere como um laser]
teima em cortar
a audácia dos meus dedos.


E saem de espinhos
encravados na garganta
as palavras mutiladas que sufoco
e que não ouves.


Nilson Barcelli © Agosto 2011






O equinócio da Primavera nos teus olhos






É frequente
dar comigo
entre o festim de chamas
no limite do teu corpo
e os vestígios plasmados
que ainda restam de ti
na pele da concórdia matinal.


Visto-me
de uma insónia tão curvilínea
como os teus seios
e de uma dormência tão perfeita
como a ternura das carícias
que os teus dedos
me fazem no cabelo.


Enquanto dormes,
fujo para dentro de mim
e consigo ver
o equinócio da primavera
nos teus olhos.




Nilson Barcelli © Maio 2011






O poema






O poema, quando é poema
[com o dissecar da vida e da morte,
e de outros variados pretextos]
recompõe a invenção da realidade
para anotar e apurar a claridade das coisas.


O poema, quando é poema,
na demora das madrugadas sombrias,
vê o amor, rutilante, a tecer hálitos de sol
nos ditames selvagens das palavras.


O poema, quando é poema,
é um desafio, gritante, à bem-aventurança
que há no sair do abismo
ou à liberdade que existe
na firmeza de deixar o que não vem.


O poema, quando é poema,
nunca é um tiro de chumbo disperso,
a contento, inútil e comezinho,
é uma arma de bala real, de senso letal,
para atingir e marcar o pensamento.




Nilson Barcelli © Fevereiro 2011








Entrevista - Nilson Barcelli


segunda-feira, 31 de outubro de 2011

JOE CANÔNICO - POESIAS




Israel (ou "os três sóis de Judá")



De qual Anjo
sairia
áurea lança ?
Qual das Mulheres
geraria
aquela criança ?
Em qual deserto
faria
aquela andança ?
Em qual terra
nasceria
toda esperança ?
De qual reino
surgiria
a vizinhança ?
De qual povo
brotaria
tal confiança ?
Qual tribo
bailaria
a célere dança ?
Para qual povo
se faria
a festança ?
De quem
irromperia
tal liderança ?
Qual Arca
guardaria
tão forte aliança ?
Em que Paraíso
perpetuaria
toda abastança ?
De qual José
se esperaria
tal bonança ?
Em qual das Marias
se plantaria
tal semente
de mudança ?



Antípoda



Posso ser vil o quanto as flores me instiguem
Posso ser excelência o tanto me agucem os crimes
Deverei ser cruel o quanto me ensine
o azul do céu
Deverei ser caridoso o tanto que me mostre
todo mar lodoso
De minha doce boca sairá enxames
De minha compreensão se instaurarão ditames
De perversas palavras brotarão nações
de tão sórdidas, se louvarão canções
A cada passo ido, voltarei no tempo
e a cada atraso consentido atingirei meu intento
De cada bocada no alimento nobre
vomitarei aos borbotões, até que nada sobre
Minhas mais sinceras lágrimas
corroerão suas faces, como estigmas
Do meu odioso espasmo e grito
resplenderá à elevação, ao solene mito
do que haverá de mais bonito !

Já não colho mais flores, às suas mortes prematuras
Já não lustro os sapatos, à tirar-lhes o pó do tempo perdido
Já não enxugo as lágrimas, que lhe dissolveram os olhos e o rímel
nem tampouco me lavo e me seco, nem me benzo e exorcizo ...
Minhas asas se derreteram sob o deserto escaldante
e nem ao menos, tal como Ícaro,
alcei voo ao seu destino previsível e fatídico
Dédalo de mim mesmo, sigo seguindo meus sóis...



Porquês



Por que chegou tão tarde
assim, sem fazer alarde
com estes olhos desenhados
só meio alegres
e inteiro amargurados ?

Por que sorriu tão linda
assim, tão cedo e ainda
mostrou teus bailados
e em meio a lábios,
me deixou na berlinda ?

Por que veio tão doce
assim, como num enlace
acenou beijos açucarados
e com trejeitos sábios
me levou ao impasse ?

Por que jogou esse charme
ateou fogo sem alarme
com esse corpo alado
de asas finas e leves,
e me deitou acabado ?

Por que dançou a música
assim, como fosse a única
jogou este olhar malvado
em encantos breves,
cedi completo e tomado ?

Por que revelou o que sinto
me prendeu em teu labirinto
alçapão enclausurado
desarmou meu passado,
e nem para mim mais minto ?

Por que tocou minhas notas
assim , tão castas e devotas
coração escancarado
despiu-me da alma às botas
me fez morrer hemorrágico,
sem ter sangrado ?

Porque chegou tão tarde
assim, sem fazer alarde...


Sete Tempos

Manda-me mais sonhos
ainda tenho muito sono
é cedo para camisa e gravata
os anjos rondam minha cama
e me arrumam as cobertas

Ferva-me mais água
o café, deixa que meço
é cedo para o banho quente
o aroma inunda a casa
e pede janelas alertas

Esquenta-me mais os ladrilhos
ainda visto macia flanela
é cedo para a porta e fresta
os sonhos inda persistem
fogem das horas certas

Banha-me de doce perfume
ainda de que breve escuma
é cedo para o baile e festa
o lenho que queima e aquece
trepida em faíscas dispersas

Arruma-me por sobre o leito
a roupa que o sol secou
é cedo para o pente em riste
o torpor que cai e esvanece
deixa por sombras discretas

Alinha-me sobre o peito
o pão que ainda existe
É cedo para a faca e corte
O leite de ubre e porte
escorreu por valas abertas

Lustra-me o couro pisado
ainda é pouco o brilho
já se faz tarde, ao que viestes
o corpo cálido que a lua velou
deita eterno em pedras concretas...



sobre Bill, Village , 46th Street com 5ª no baixo e pernas...(sandices em 3 movimentos)

I

quando ouço Bill Evans,lembro New York
até do teu pescoço branquinho.
Voce sabe...ou não lembra ?
porque a cada acorde resoluto estremeço
adrenalinicamente óbvio, dor de barriga
pelo e pele e curva e alcova e soul
teu cheiro na minha barba, minha cova
subway do teu sorriso no meu estômago
fico nanico, pago esse mico
...aí ?...vai ou não ?... que coisa !
será que teu sorriso não sai
mais de um sol com a 4ª no baixo ?
é droga...só pode ser !...ácido lisérgico
esse trio não é moleza,
só destreza e quero mais
à dois, com talheres ao fundo
eu vou pro fundo do teu olhar
passado na Broadway com 5ª
nosso cenário é a Greenwich Village
putz !...começou o solo do baixo...
fico muito puto com tanta
baixaria...ou seria a tua BRUXARIA ?
[please, driver... get on left, to 46 Street
I left my heat on her heart, sorry…
nothing more to do…]
quando ouço o Bill de novo
te lembro e morro sozinho
no Central Park, China Town
Voce não vem ?...Também não vou...
estamos resolvidos em Si sustenido...
ah !...que besteira !...isso é um Dó !

II

Levanto e misturo café com pasta de dente
newspaper com sanduíche de queijo-quente
Me sinto vulnerável igual September11
ainda levanto pra escrever bobagens
de novo ouço Bill Evans, e traço linhas
sem conduta nenhuma mesmo
pura porralouquice, meninice mesmo...
miseravelmente louco, babo um pouco
me desespero e espero seu triângulo
pelúcia amaciada com Confort...
a gente bem que podia se encontrar
pra namorar um cup of coffee whit Bourbon
naquele bar em frente ao Metropolitan...
peraí !...D dim/9...G7+/A...C7+/G
ficou legal ?...sei não...meio blasé...
Não consigo esquecer daquelas pernas
se Bernstein tivesse vivo,
faria uma sinfonia pra elas...
ta bom...ta bom...faço eu, então
no mínimo uma Sonata elas valem
“Sonata Nº 5 , per tue gambe...”

III

Preciso ir até Down Town...
O que me faz voltar pra cama
é poder escrever, tocar, beber, amar
et coetera e tausssssss...



*JOE CANÔNICO - Entrevista

terça-feira, 25 de outubro de 2011

MIRSE DE SOUZA - POESIAS















MEU EU EDIPIANO



A luz que me inspira
é a mesma que
me embaça a visão.
O olhar edipiano
refletor,
encontra na cegueira
a luz interior

Única e verdadeira.
Quando os olhos não são a luz da alma
a alma ilumina a luz do opaco olhar.



IN BLUE


Numa delicada partitura
A natureza obedece
A batuta do maestro
cachos de uvas azuis
surgem como ninfas
em prosa e verso
em suave adágio
oitava sustenidas
sustentas pelos galhos
que se esmeram em exibir o blues
das graciosas uvas azuis



AUTO RETRATO


Sou a lágrima furtiva,
o engano em forma de vida
Da fotografia, sou o negativo
Na natureza, sou o desvio,
Não sou sombra, sequer o abrigo
Do destro, sou a mão esquerda
Na companhia, sou a ausência
Das palavras, sou o silêncio
Sou o ápice da dor
Sou o espinho que feriu
em forma de coroa,o Criador
Sou a mãe que não vingou
Borboleta sem cor
Perdida num mundo
Imundo de Amor?
Sou a obra inacabada
De Mondrian,
Sou o que ele não acabou.




ETÉREO



Quando a vida por fim descer o pano
Sairei do meu interno deserto
Quero ser teu sonho
Em luz, em cor
Em som aberto

Reconhecer-me-ás
No plâncton
Nas conexões do etéreo



Onde me encontro.



EPÍLOGO



O arco-íris se desfez das cores
O sol corou de medo e dor
quando sua luz refletida
gerava um arco sem cor

A nuvem tremeu de frio,
se agasalhou.

Poetas emudeceram...
Venderam sonhos que sobraram,
e mudas de fé murcharam.

Escassez e silêncio
num mundo destruído e assim

Fez-se o desfecho

e

F
I
M.



MIRSE DE SOUZA - Biografia









domingo, 23 de outubro de 2011

JOSÉ CARLOS PATRÃO - VÍDEOS


JOSÉ CARLOS PATRÃO - POESIAS

                     


POETA DE PORCELANA...



Meio silêncio basta
Meio sorriso
dispensa a gargalhada
que soa a troça…

Nostálgicos são os sinais
que percorrem a cidade obscura...
A luz da lua é alquimia
e o aroma de flores
soa a perfume insensato…

Contudo aqui não deve ser o Inferno...
Está demasiado frio
e a minha pele não derrete…
Mesmo debaixo de água
não me afogo
e a fantasia
nunca mais será a mesma…

Até ao presente
a manhã foi-me devota…
Aparece mesmo em dias de guerra...
Fui-lhe infiel e gritei...
Disse-lhe ADEUS
antes que fosse tarde...
Poderia tropeçar e quebrar-me…
Pois sou apenas
um poeta mudo...
...de porcelana…

Sonhava em espreitar a estupidez
sem que ela me detectasse...
Talvez um conceito meu
de altivez...
Uma viagem mental
a um destino que nunca chegasse...

Sonhava também
em abandonar a cobardia
e ter a coragem de afirmar
que esta noite se está a tornar irritante
e estou farto de escrever...

Manias de descrever
estranhos mundos
que não são meus...
Caminhadas à chuva
em belos dias de praia,
em que os céus rivalizam
com tulipas azuis
e sedas rubi...
Voando o mais rápido que podem
tentando que o Tempo
se torne reversível...

Mesmo à espera
da paragem final
não me imiscuo de alegrar
um par de olhos tristes...
Sempre duvidando da claridade...
Com um sorriso disfarçado...
Pesando o delicado balanço
da ironia da tua verdade...




BALLERINA


Sinal de um tempo
Bailarina que flutua
numa dança que me entontece
voando…
Tropeçando com elegância
como um anjo ferido
em mentiras
e obstáculos perenes…
Chorando com alegria
pingos de chuva
frios
de Novembro…
Quisera esquecer-se
de caminhos percorridos
em exaustão e contumácia
de outrora, banidos…
Bailarina de betão
que adormece transeuntes
e seus reflexos
em gastos edifícios
envidraçados…
Respira em silêncio
com a memória congelada
e derretida…
Pontapeia folhas alaranjadas
do fim de um dia…
Sorri da estrada fantasma
iluminada
pelos seus lábios
que beijam o destino cromático
em que loucamente
acredita…
Esbarrei no seu olhar…
Dancei sem me mover…
Silhueta esbelta
de uma menina
que rodopia…
A que sem vertigens
sussurrei ao ouvido e
pausadamente
apelidei de…
…Ballerina…




REFÚGIO NO DESERTO


Como é que seria suposto
Ser o mundo
Para além desta cerca
Um refúgio
um espelho de mim
Qualquer coisa
Um momento
Que quebre o silêncio
Nem que seja a estupidez…
Estampada no rosto
Duma flor da manhã…
Que contudo me alegra…
Sinto-me vivo…
…casualmente…
Escolho-te para inspiração
Para além daquela pequena gota
Que desgastada me perseguiu
Ainda me lembro
Por vezes
De deixar a janela aberta
Na esperança de a voltar a sentir
Na face caída do Céu…
Rolando calidamente
Nas areias inocentes
Dum deserto só meu…



Sete de Espadas...



Desígnio dum mandamento
o número sem sorte
projectado numa carta de espadas
terá sido mal jogado
na retrospectiva
de um estranho lugar
algures
abaixo do soalho
do meu sótão…
Fez esvoaçar um pássaro em decadência
trespassando uma janela de folhagem
sem vista…
Sobressaltou
uma ninfa
outrora desenhada apenas por vocábulos…
Com seus olhos negros
obrigou-me a ajoelhar
oferecendo-me uma rosa vampiro
que faz borbulhar o sangue
num toque veludo
rodeado de espinhos…
Pareceu-me vislumbrar
reflexos de duas faces
atrás de máscaras
de beleza veneziana
exibindo frutos
e pestanas prateadas
muito para além da luxúria…
Confessei erros
acendi sorrisos
arranquei tudo que era verde
das folhas que manipulei
com as chuvas do meu suor…
Apesar de faltar sempre algo
sonhei com a imortalidade
de momentos sem nome
da mulher do vento…

* JOSÉ CARLOS PATRÃO - BIOGRAFIA



  


quinta-feira, 20 de outubro de 2011

ANA TAPADAS - POESIAS



Teia Luminosa

Que faremos no silêncio gelado,

Dos olhares que se cruzam...
E não sonham?
Que orquestra, que limiar?
Que fina aresta, que traçado?


Usam secretos sibilos, os arautos,
E caminham sobre a teia luminosa.
Incautos, porque sonham?


Protegida




Não devia, sem dar, fazer nascer o repartir,
Não devia vir onde me afasta o meu ir...
Este encontro nascido do regresso,
Esta alma nua a virar almas do avesso!


Não queria ser suave e ser ferro;
Não poderia ser o gérmen do erro.
Não queria fazer vergar se estou a vacilar,
Não podia partir no meu sentido ficar!


Meu Deus, isto que lanço, isto que invento,
Isto que é um aproximar, um pressentir,
Jamais veio de mim ou do meu intento!


Senhor, por que sou um não sei quê que faz sentir
Um desencontro de protegida dormindo ao relento?
Por que sou a perturbação de quem me pede p'ra sorrir?


Caía serena e mansa no cinzento do dia,
Como um sacramento húmido e puro!
Nem sei porque olhando eu bendizia
O clarão tardio de um ideal maduro.


Tingia-se de luz, qual fruto escuro,
Como um lamento de sol entontecia.
E, procurando na noite meu ideal duro,
A  irmã chuva no olhar me amanhecia!


Caiu serena em gotas de paz e tormento,
Desceu nas palavras suaves e medidas,
Inundou o meu deserto árido e sedento.


E em mim despontaram esperas perdidas.
Nem sei que ânsia de dar ou que momento
Me levou a desejar riquezas esquecidas!

O Excesso





Se chorar, dirás que sofro...
E, todavia, o céu telúrico.
E, todavia, os teus passos,
Os teus laços,
Tu...
O palpitar constante,
O ser difuso, divagante!
Não sei do espaço,
Perdi o tempo,
No momento
Em que tocaste o meu sonho!
A beleza, a nobreza...
O excesso e o reverso...
E, se te sonho e te quero,
Tu és a calma, a agitação
- o meu processo!
Se chorar dirás que sofro!
O habitual, o convencional...
Porém, há um hino divinal
E pássaros entram pelas vidraças,
Se me abraças...
E te perdes.




Resumo


Posso, finalmente, abrir os braços

E neles abarcar este mundo, este mar;
Falar-te das palavras pequenas e dos laços,
Que unem e libertam, bêbados de amar!


Dizer-te, com calma e sem protestar,
Que o eco divinal dos teus passos
Liberta a paz e o sonho de me dar
À força etérea de musicais compassos.


Neste eterno oscilar a música amo,
Da natureza de um ser o eco e perfume.
E, no antro da vida, procuro e clamo


Fugindo às cálidas manhãs e árido lume,
Porque os desejo e neles me derramo,
Posso dizer-te o Amor que o poema resume!


ANA TAPADAS - BIOGRAFIA

VANESSA VIEIRA - Espaço Aberto aos Leitores







O estranho e conhecido olhar de uma rosa


Enfrente à janela do meu quarto fiz um jardim. E lá estão todas as flores que me são cativas.  De algumas, restam as raízes e as pétalas porque já se foram. Outras, chegaram no decorrer do tempo, e nem percebi que estavam por lá, mas estavam. E também existem aquelas que desde o início lá estiveram.
Meu jardim está repleto e gosto tanto dele que todos os dias, passo por lá para conversar com as minhas pequenas. Estamos sempre de encontro marcado.
Há alguns anos atrás, enquanto fazia meu passeio diário, me deparei com uma flor diferente. Sim, diferente como todas as outras são diferentes, mas era uma diferença especial. Ao mesmo tempo em que me trazia medo ela me trazia alegria e causava uma briga terrível em meus neurônios! Eu não conseguia olhar em dos seus olhos e muito menos além deles. Isso me apavorava!
Quem me apresentou a ela foi a flor Rachel, uma flor finíssima que em poucos jardins se pode encontrar.

- Seu nome é Rose!  - Me disse a Rachel antes de ir embora.

Algum tempo se passou e eu fui me acostumando com aquela nova flor em meu jardim, mas não me acostumava com aquele desconforto insuportável que eu ainda sentia.  Sempre fomos gentis uma com a outra e ela então... Agradabilíssima, mas eu... Eu ficava com o desconforto. 
Não conseguia me acostumar de verdade com ela, aquela rosa... Sim ela era (e ainda é) uma rosa. Ela era observadora demais e sempre me parecia que sabia mais sobre mim do que demonstrava. 
Depois disso, mais um tempo se passou e eu comecei a olhar para a Rose de outra maneira. Percebi que ela sabia sim, algo mais sobre mim, mas fui eu que dei as pistas que ela precisava. Acabei descobrindo que a Rose era diferentemente igual à Rachel. Ela é mais uma flor de fino porte que em poucos jardins se pode encontrar. 

- Quantos jardins precisam de flores iguais a essas... – Fiquei a pensar... E eu dei a sorte de encontrar duas!!

Sim!! Encantei-me com a Rose... E nos últimos dias até trouxe o seu vaso para mais perto de minha janela. Gosto de tê-la por perto. Agora, ao invés do medo ela me traz uma estranha segurança. Não me perguntem como ela conseguiu essa façanha, porque isso eu não sei explicar.
A única coisa que sei é que me sinto honrada de ter a Rosa Rose morando em meu singelo jardim.



AGITAÇÃO 


A alma do poeta está agitada
Sofre e não sabe  por que.
Pensa e não sabe em que
E por isso agoniza...

Até o deitar se torna difícil,
Pois os sonhos, de tão intensos, lhe parecem reais
e por isso lhe ferem... Machucam.

Não se conforma com a inquietação em que vive
e tantas são as vezes em que se revolta
Com a imensa poesia em que sua vida se tornou.

O mais certo porém, é que quando escreve se acalma.
As palavras lhe acalentam a alma
São músicas ao seu coração de poeta.
A caneta e o papel ( e as teclas também por que não?)
São seus maiores refúgios.
Não importa o que escreva ou para que escreva
Escrever apenas basta!
É isto que lhe acalma!



CARTA A UM DESCONHECIDO



Estava passeando pela rua quando te encontrei...
Te dei bom dia... Puxei assunto...
Você não me respondeu!
Fiquei te olhando...
Depois, segui minha viagem.
Alguns dias se passaram...
Novamente eu estava caminhando
E te encontrei no mesmo lugar.
Falei com você novamente,
Mas parece que você não ouviu..
Ou não quis me ouvir.
Te observei...
Olhei fixamente para você
Mas nem a um olhar você retribuiu...
Fui embora meio desconcertada,
E lá no fundo procurava entender seus motivos.
Afinal, você tem o direito de escolher as pessoas com quem fala. 
Fui andando pelas ruas
e os pensamentos sobre você e suas atitudes
inundavam minha mente.
Foi então...
Que encontrei uma pessoa
Alguém que prontamente respondeu ao meu sinal de “olá!”
E que estranhamente passava pela mesma situação que a minha
“Não correspondência”.
Fomos caminhando e conversando até que tivemos uma ideia

Pensávamos...
De que maneira poderíamos ser notados por vocês?
Por isso resolvemos escrever esta carta....
Para lhes dar bom dia e dizer que um olhar pode mudar muita coisa.
Bom...
Então...
Bom Dia!

Ass.: Alguém que você não se permitiu conhecer.





FAÇA AMOR COM AS PALAVRAS






Por esses dias encontrei um amigo que andava sumido
Perdido, entre as ruas da vida.
Fiquei encantada quando ele
Demonstrou sua, ainda, capacidade de me conhecer.
Eu estava cansada... triste...
Para dizer a verdade
Meus pensamentos andavam distorcidos
As palavras de mim fugiam...
Enfim...
Minha consciência estava um tanto quanto perturbada.
-Faça amor com as palavras!
Foi o que ouvi após, melancolicamente, 
relatar a ele  o que acontecia 
- Sim! Faça amor com as palavras!
- Como assim? Perguntei.
- Oh! Minha cara, essas coisas ninguém ensina
A gente aprende...
Dou-lhe apenas um conselho: 
-Ame loucamente as palavras e elas não fugirão mais de você!
Em seguida nos despedimos...
E olha só no que deu toda aquela conversa...
As palavras estão de volta
E brincam com meus pensamentos!
Aos amigos
Assis Freitas &
Primeira Pessoa!




Bio auto grafia do EU






Gostei do que vi agora não paro mais...
É minha liberdade, minha vida...Meu...
O jogo entre o que posso e o que devo
Entre o que sou e o que queria ser...
Entre os possíveis e os impossíveis...
Sim , este é o fato falado de mim,
Fato falado do que sou (?)
Partida (sempre)
Chegada (nunca)
Partida (constante)
Chegada (longe.... Longe...)
Ponto. Isso é o que sou.
O quê?
Não sei....
Apenas sou.






Esquecidos pés!








São eles que me sustentam
E me levam pelos caminhos da vida
E deles - muitas vezes – nem me dou conta.
Desde cedo queriam brilhar nos palcos clássicos 
Sustentando a bailarina,
 Mas não deixei... Não deixaram...
E com isso foram esquecidos.
Raras vezes foram cuidados com o carinho que mereciam
Viviam sempre no país dos esquecimentos...
E é por isso que recebem estes versos...
Para se definitivamente  lembrada sua importância 
E, além disso, da minha impossibilidade de viver sem eles.


Ps.: Poema dedicado aos meus pés de bailarina que nunca pisaram no palco.






Fúria do Silêncio da indignação






E agora... 
O descontentamento...
A fúria...
A indignação
Todos 
Contra o castigo que 
Eu mesma me dei...
Para que a cobrança...
Para que a vingança...
Para quê???
Minha voz é um estático
Silêncio involuntário
Razão do meu desespero
De minha angústia...
A voz que é bela não sai
E não contente com isso
Deixa o seu espaço para aquela
Que muito pouco merece...
A vergonha...
Ah descontentamento, fúria e indignação...
Movam! Movam meu silêncio!!!






Parei com as obediências!






E agora um basta!
Chega desta história de vem aqui ou vai ali,
E eu vou
Pense assim ou assado
 e eu penso.
Faça isso ou aquilo
 e eu faço!
Parei...
Não vou por ai, 
Não farei mais o que mandarem 
E muito menos pensarei assim 
Do jeito que querem.
Cansei....
Vida é coisa séria
E fica muito mais séria 
Se não tomamos conta dela direito.
Farei o que meus pensamentos mandarem 
Irei por onde meus sentimentos me guiarem
E ouvirei sim, a vocês, 
Desde que vocês me convençam 
De que assim devo proceder...
Enquanto isso não acontece....
Parei com as obediências!



Biografia:


Vanessa Vieira é educadora e graduanda do curso de Pedagogia. 
Aos 12 anos deixou-se encantar pela poesia e pelas crônicas,
ingressando em um caminho sem volta... 
Foi fisgada pelas palavras.
Seus textos são publicados no blog Pensamentos valem mais que ouro,
Blog que criou quando tomou coragem de tonar pública suas indagações.

Contato: v.vgvieira@hotmail.com


Blogs onde escreve:  





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